A verdade é que eu estou cansado.
Cansado porque, para mim, existem duas realidades acontecendo ao mesmo tempo, bem diante dos nossos olhos enquanto passamos o nosso tempo sentados 8 horas por dia diante da tela de um computador, fingindo que fazemos alguma coisa sobre isso. Cansado porque meu cérebro precisa, a todo momento, se ajustar para compreender as duas realidades e transitar entre elas para manter minha sanidade.
Uma dessas realidades é visceral, dilacerante, conturbada, terrível. É a tessitura de um mundo destruído por guerras, interesses políticos, um sistema capitalista predatório, pessoas abaixo da linha da pobreza, catástrofes climáticas, um movimento de ódio e desinformação tirando direitos básicos das pessoas pela manutenção do status quo.
A outra é uma realidade morna, protocolar, coberta de açúcar e confeitos. É a verdade fabricada pelas organizações e pessoas que se mantém na lógica dos tapinhas nas costas, porque lançaram para o mercado mais um update que usa inteligência artificial para melhorar a performance dos cliques em carrinhos de compras.
Como liderança de uma organização, eu preciso transitar entre as duas realidades. Preciso ajustar meu discurso, dizer para meus sócios “precisamos falar o idioma do mercado, pois só assim conseguiremos ser levados a sério”, apertar algumas mãos, falar de breakeven, de margem, de crescimento, de estratégias e canais.
Esse vai-e-volta cansa, esgota minha capacidade sináptica de pensar nas questões que eu julgo definitivamente mais importantes: como iremos resolver os efeitos da crise climática no Sul do país? Ou como podemos apoiar pessoas em situação de insegurança financeira a poupar dinheiro para levar os filhos ao médico numa emergência? Ajudar a mensurar a efetividade do currículo escolar em países com apagões de conectividade? Apoiar médicos do SUS a melhorar a qualidade de seus atendimentos? Orientar um cardiologista recém-formado a administrar o remédio correto e evitar um infarto em uma UBS no interior do Amapá?
Eu também cansei de esperar que alguma grande mudança aconteça e, da noite para o dia, faça as empresas do mercado como um todo olhem para esses problemas, direcionarem recursos para as crises que estão arrebentando o mundo de dentro para fora, focando esforços para usar tecnologia, dados e um processo inteligente de design para que as soluções sejam perenes e escaláveis.
Eu cansei.
Não quero ler mais o seu post sobre “como a IA pode revolucionar o seu negócio” a menos que ele seja focado em monitoramento de queimadas na Amazônia. Vou passar direto pelo seu vídeo incrível falando sobre “os principais indicadores de qualidade para a gestão eficiente de produtos”, a menos que ele tenha como objetivo melhorar a logística da distribuição de alimentos sem agrotóxicos.
E não venha me dizer que isso não é sustentável, que o mercado precisa existir para que as pessoas tenham empregos ou que, no fim, as coisas se equilibram pela lógica da mão invisível. Antes de mais nada, estou dizendo que o mercado precisa se reinventar, não acabar, justamente porque a mão invisível só opera para um lado. Em segundo lugar, já provamos há mais de décadas que negócios de impacto são, sim, sustentáveis - inclusive tem muitos recursos disponíveis para eles.
Por fim, se apelar e me chamar de comunista - sim, já fui chamado disso só por ter defendido medidas de justiça climática - é porque não sabe nem o que é o comunismo, nem um comunista, então se poupe, me poupe e nos poupe de passar essa vergonha. Ao invés desse papelão, que tal se juntar ao movimento das empresas do novo milênio? Repensar suas práticas? Mudar o recorte dos problemas que está resolvendo?
Afinal, em breve, pode não ter nem mundo para abrigar o seu tão querido negócio.

